Quando a escuta transforma programas: O que dizem os beneficiários do PAT II
O Projecto de Empoderamento da Rapariga e Aprendizagem para Todos (PAT II), implementado pelo Ministério da Educação com financiamento do Banco Mundial, realizou entre 2025 e 2026 um amplo exercício de auscultação junto dos seus beneficiários. Foram conduzidos 117 grupos de discussão em 19 províncias do país, envolvendo professores, alunos dos Clubes Escolares, participantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e beneficiários das Bolsas de Estudo.
Os resultados mostram que, apesar dos desafios existentes, o projecto está a produzir mudanças concretas na vida das pessoas.
Entre os professores, surgem evidências de mudanças nas práticas pedagógicas e na relação com os alunos.
“Passei a dar mais atenção aos alunos… o foco tem que ser o aluno”, disse um professor durante uma sessão de auscultação. Outro professor na mesma ocasião referiu que agora os docentes da sua escola são “mais amigos das crianças.”
Os próprios alunos demonstram maior interesse na participação das aulas e das actividades escolar, sem qualquer receio, ao mesmo tempo que persiste uma visão realista dos desafios.
“Aprendemos uma coisa, mas encontramos outra realidade”, explicaram.
Nos Clubes Escolares, os ganhos em saúde sexual e reprodutiva são visíveis. Os participantes destacam a prevenção da violência e o empoderamento das raparigas.
“Aprendemos que não devemos nos assustar com as transformações que o nosso corpo sofre ao longo do tempo, sobretudo quando entramos na fase da puberdade.”
As dúvidas, mistérios e ignorância sobre o corpo da mulher ficaram para trás.
“Eu pensava que uma mulher que menstruava era doente… agora sei que é algo normal.”
As situações de abuso são agora mais facilmente identificadas. As sessões de formação nos Clubes Escolares capacitaram os participantes para melhor identificarem as situações de abuso.
“Eu percebi que não é algo normal, é algo perigoso e que pode causar danos”, afirmou uma participante.
Outra participante que disse estar mais atenta em relação às situações de abuso depois de ter denunciado o abusador, no caso em concreto, um professor.
“Ganhei vontade, perdi o medo… o professor foi expulso graças à queixa que eu fiz.”
As mudanças de comportamento resultantes das sessões de formação não se fizeram esperar. Os resultados foram quase que imediatos. Os jovens agora sabem que não podem gozar com a aparência dos outros, comportamento este que antes era característico e tido como “normal”, mas que agora é veementemente reprovável.
“Eu fazia bullying… agora aprendi que não devo fazer”, contou um jovem numa das sessões.
Na Educação de Jovens e Adultos – E JA, o impacto observado centra-se na autonomia, na auto-estima e na inclusão social. Muitos adultos aprenderam a ler, a escrever e, do modo geral a se comunicar melhor, por isso deram testemunho nas sessões de auscultação.
“Hoje já sei ler, escrever bilhetes, mensagens no telefone e ler a Bíblia”, disse uma aluna da EJA. Para uma outra mulher, a alfabetização alterou a sua vida familiar: “Já teve uma vez que o meu esposo comprou uma ZAP para outra mulher e eu peguei o papel e li. Quando perguntei, ele confirmou. Se eu não soubesse ler, nem escrever não poderia dar conta. A alfabetização me ajudou muito.”
Entre as mulheres surgem relatos de maior confiança e independência, deixando para trás o fardo pesado da ignorância e do analfabetismo.
“Agora já consigo conversar com as pessoas sem vergonha… antes me sentia inferior porque não sabia ler.” Outra mulher afirmou: “Hoje já consigo ir ao hospital sozinha.”
Entre os homens, um participante resumiu a mudança da seguinte forma:
“Deixei a matumbice; agora sei escrever e ler; aprendi que mosquito gosta de água parada.” Outro destacou mudanças nas relações de género: “Eu aprendi que um homem não pode tocar numa mulher sem a permissão dela.”
No programa de Bolsas de Estudo, os beneficiários referiram que o apoio contribuiu para a permanência na escola e para a redução das dificuldades económicas.
“A bolsa me motivou mais a estudar e continuar os meus sonhos”, afirmou um estudante. Outro referiu: “Sim, ajudou muito a comprar os materiais e deu alguma facilidade de os pais não gastarem muito.”
Uma jovem resumiu o impacto de forma particularmente expressiva:
“Eu não posso mais dormir com qualquer pessoa para ter dinheiro.”
Embora persistam limitações estruturais nas escolas, dificuldades económicas das famílias e desafios institucionais que continuam a exigir atenção, os grupos focais confirmam que o PAT II está a produzir mudanças concretas na vida dos beneficiários. Os relatos recolhidos mostram pessoas mais confiantes, mais informadas, mais capazes de exercer os seus direitos e de tomar decisões sobre o seu futuro. Seja uma rapariga que ganhou coragem para denunciar um abuso, uma mulher que aprendeu a ler e conquistou maior autonomia no seu lar, ou um estudante que encontrou motivação para continuar a estudar, os testemunhos demonstram que a educação continua a ser uma das ferramentas mais poderosas de transformação social. Mais do que números e indicadores, o PAT II está a contribuir para mudar trajectórias de vida e a criar oportunidades para que milhares de angolanos construam um futuro melhor para si e para as suas comunidades.
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